quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Crianças

A mesma tragicomédia da infância.

Eu que achei que era crescido, eu que achei que era moço grande e decidido.
Descobri que sou e sempre serei um menino.

Tudo mudou rápido ao mesmo tempo devagar.
Tudo foi tão difícil ao mesmo tempo tão divertido.
Eu continuo falando muito de mim, sendo sincero e egocêntrico ao mesmo tempo, é como se o brilhantismo e o ridículo habitassem o mesmo corpo, e eu acho que é bem isso.

Lembranças.

Aos 5 ele tem sua vida dividida pelos outros, metade papai metade mamãe. Ele não entende direito o que é isso, mas pra quem nunca viveu o comum, o incomum é a realidade mais verdadeira e sincera que ele tem. Nada como o costume.

Aos 18 ele tem sua vida dividida por si mesmo, seu personagem puro e determinado, seu personagem perverso e preguiçoso, seu personagem que entrega todos os músculos do seu corpo por um prazer que nem ele mesmo sabe julgar porque é necessário. Ele não deixa de sentir medo, tampouco o arrepio, ele se entrega de todas as maneiras que alguém confuso pode se oferecer.


Aos 8 ele é obrigado a conviver com destinos e morais diferentes dos seus, por mais incompleto que fosse seu caráter de criança, ele sentia que sua perspectiva ia muito além da janela do 14º andar de um apartamento em São Bernardo. Ele se achava um herói, um diferente, alguém com todos os sonhos guardados pra explodirem na cara de quem o confrontasse, mas ele era uma criança, suas crenças não saiam da porta de seu quarto.

Aos 18 ele por decisão escolhe conviver com destinos e morais ainda mais diferentes dos seus, por escolha, ele descobre que tem escolha, por mínima que fosse, é ele quem decide se deve viver ou morrer. E por mais mortas que possam estar suas expectativas ele as maquia, o defunto fica atraente. O melhor de tudo, o defunto é máscara, seu potencial nunca brilhou tanto. Ele faz da desorientação seu mapa e do mistério solucionado e feliz o grand finale das suas metas, que ele jura que serão alcançadas.


Aos 10 ele muda de casa e rotina, brinca com cães que são lobos, escuta vozes que são choro, seu olho brilhava, mas ele não sabia se era alegria ou desespero, ele se julgava muito novo pra entender tudo aquilo, então ele faz da ingenuidade sua arma mais preciosa.

Aos 18 ele está numa casa e rotina diferente de 8 anos atrás, os lobos já devoraram parte de seu fígado, as vozes são gritos e o choro fora abafado a muito tempo, seu olho continua brilhando de desespero e alegria, ele teve que aprender o que era isso, e por mais estranho que pareça ele se orgulha da contradição, se orgulha de viver roteiros diferentes da mesma história, ele é obrigado a mudar de personagem periodicamente, e é isso que o faz forte.


Aos 14, começa a confusão, a parte da história que mais se assemelha com o inferno, se o inferno for o que ele pensa. Sua vida sexual é posta em pauta publicamente, é expulso de casa por um motivo tão ridículo quanto uma morte por engasgo e é nessa parte que ele realmente descobre que não nasceu pra ser o mocinho feliz e contente da história.

Aos 18 as respostas foram dadas e toda a humilhação dos 14 anos se volta contra quem as fez, ele admira quem é, isso que faz seus pecados não fazerem sentido. Ele se torna protagonista, vilão e ídolo de seu universo caleidoscópico.


Aos 17, o mundo se torna maior do que já é, todos os estímulos do seus corpo se voltam ao prazer, todas as vontades do seu corpo nunca foram tão compreendidas. Acho que é nessa parte que ele descobre o valor da sinceridade. Ele chega a conclusão de que todos são prostituídos até onde não fere o caráter. Ele vê o mundo com olhos de neon, ele vê o mundo todo ali do lado, ele agarra as chances com tanta força que as esmaga, ele voltou a ser ingênuo. Chegou a mesma conclusão dos seus 5 anos, o incomum é sua realidade mais verdadeira. A arte de gritar no escuro, qualquer coisa, pra quem quer que seja.

Aos 18 ele escreve e pensa que tem os mesmos problemas de sua infância, a diferença é que não existem príncipes, princesas, fadas, certo, errado, dragão, caverna, luz, nunca existiram conclusões. Existiram marcas, feridas que gritam mais alto que nossa voz. Não precisa falar, é só sentir. Agora ele ri, gostaria que depois de ler tudo isso ele escutasse o silêncio, seguido do ranger de uma balança no parque, ele segura a balança com as duas mãos, escuta o sinal e volta pra sala de aula: o recreio acabou.

Nunca houve recreio, nunca houve parque muito menos o ranger da balança.
Toda essa brincadeira era um ensaio da sua ingenuidade, ele podia não voltar pra aula quando escutasse o sinal, mas se fingia de domado e ensinado, ele faz isso até hoje.

E é por se um menino que faço da ingenuidade uma arma, os brinquedos da ganância perderam a graça. A tendência é matar insetos com sorriso, matar os sonhos por fora e deixá-los brilhar por dentro, até que tudo explode e você descobre que era ingênuo mesmo quando não queria ser.

Morreremos crianças, e eu amo ainda rir como menino.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sou teu erro

Bailarinas em pontas de faca.
Movimentos duros e doloridos.

Foco de luz na sua cara.
Risos.

Sua dor assistida, comentada e avaliada, por uma comissão de juízes que tem tantas cicatrizes que mal vemos seus rostos.

Apaguei os SMS, as DMs, os depoimentos.
O que eu tenho são lembranças vagas, fracas e vergonhosas.

A multidão te ama quando você sangra em público.
O amor comove, emociona. A dor do amor alucina, vandaliza, te faz estrela de mortes e momentos.

Eu esqueci daquelas ligações.
Falei tudo o que queria falar.
Falei tudo o que eu não devia falar.

Existem documentos, testemunhas, vítimas e fotos.
Socos e sussurros.
Cortes, coices e cotoveladas.
Palavrões, prazer e paladar.
Promessa e perdão.
Dias longos, dias muito longos e dias que ainda não acabaram.
Forcas, fossas, força.
Um sim, um não. um sim, dois talvez. um talvez e até logo.
Disse o que não sinto, ajo como sinto.

Tantos rostos, tantos nomes.
Coloquei todos numa folha de papel, cuspi, rasguei, atirei fogo.
Amnésia.

Tão bom, tão simples, tão prático.
Placebo mental.


Fuma, fede, foda-se.
Nunca me colocaram regras, já que não sou abrigado, não me privo de impor portões de acesso blindados ao meu peito.

Como chuva, caem cacos de vidro do céu.
Ergo a cabeça, tiro as roupas, abro a boca.
Nunca foi tão doce.
Livre pra doer, livre pra sentir, livre pra morrer sem choro, viver sem dó.

Estou aberto, sou criança, sou menino novo e inocente.
Sou balança do parque, gira-gira sem lado certo pra rodar.
Sou a lágrima do teu pulso, sangue do teu olho.
Dor do seu sorriso, alegria da tua morte.
Sou teu erro.
Tua expectativa inalcançada.
Teus sonhos inalcançáveis.
Tua sorte em dias de chuva.
Teu mal em plena luz do Sol.
Sou teu medo que grita, tua fúria que acalma.
Sou tuas mãos duras, teus olhos podres.
Tua boca contaminada, teu corpo em preto e branco.
Sou teu vômito e tua sede.
Tão doce que amargo, tão amargo que amadurece.


Acordei sorrindo.

Me dou o direito de colocar uma página em branco em cima das rasuras da minha memória.

A arte de fazer da vida um jogo de sueca.

domingo, 7 de novembro de 2010

O que nossos pais não nos ensinaram

Eu não sei como começar, porque talvez essa história não tenha começo.

Tudo acontece num tropeço de criança, e as mãos que te salvam foram as mesmas que te deixaram cair.


Não existe história de amor. Não existe limite, nem dia de sorte. É um caso de fraqueza do orgulho que descarrilha pra carência.

No dia seguinte as pessoas voltam ao normal, mesmo dividindo a mesma cama, eles fingem que não se conhecem.

É o que o orgulho permite; é o que eu me limito a fazer, já que não sei ler mentes.

Tapas no peito, na cara, no ego. O universo das atitudes cria a fantasia perfeita pra uma história mal resolvida, que nunca teve motivos ou explicações. A gente finge que nada aconteceu, o jeitinho tímido e meigo de ser tapa a ferida com um sorriso.

Silêncio e brigas, esse é o contexto.
O trágico nunca foi tão cômico. Cuspir palavrões e engolir indecisões.


O mais prazeroso: ninguém perde ninguém, ninguém deixa de amar ninguém, porque ninguém se ganha, ninguém se ama, ou pelo menos não se permite ser.

A sobriedade não faz parte dessa história.
Nossos pais não nos ensinaram a lidar com isso; nem toda experiência do mundo entende o amor, a paixão ou o puro impulso do tesão que seja.

Meus joelhos estão ralados, minhas roupas pra lavar e minha cabeça tentando decifrar meus enigmas desconexos, sem contexto histórico ou base teórica.


Repito: eu não sei lidar com isso. Continuarei não sabendo até você me dar explicações, e como nunca dará, permanecerei não sabendo.

E como nunca houve despedida, não vejo porque haver alguma agora.

Até o acaso.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Três copos de vodka

Estava com minhas amigas.
Fomos no mercado.
Bebemos.
Chegamos na porta da balada, e antes de uma delas vomitar...

Você me pegou de surpresa.

Isso nunca tinha acontecido antes, um dia tinha que acontecer. E até agora eu não sei se agradeço ou me arrependo de ter conhecido você.

Eu sou à prova do tempo, à prova de mágoa, à prova de medo. Você sabe. Eu só não consigo me privar de tentar, não sou à prova de idiotices, e me provo todos os dias o quão bom nisso eu sou.


E quer saber? Eu não me arrependo.

Só de tocar na sua pele eu fico feliz, e não sei como, mas nunca vi você beijando outra pessoa. Acho que esse é teu presente pra mim. Apenas isso. Sempre foi isso.

A pessoa mais sensível do mundo, dentro da casca mais grossa do mundo.
Os únicos que costumam romper essa casca são meus pais, alguns amigos e o álcool.
Uma noite boa, uns goles e você... HUAHSAU! ironia, mas aconteceu.


Pensei rápido no que ia dizer.
Ensaiei comigo mesmo.
Ensaiei com outras pessoas.
Duas tragadas.
Lá fui eu...

Agora, depois ou nunca mais?

Perguntar se eu estava bem foi por educação ou acanhamento, não reconheci direito. Mas era óbvio que não.

Digo que sim. Assim as coisas ficam mais fáceis.

Mais vergonhoso pra você que estava bem (eu acho), menos pra mim que estava mal.

Mas a bebida passa, a ressaca vem, e pior do que ela só as lembranças. A sina das minhas lembranças sempre são a vergonha. Acho que isso não muda tão cedo.

Pra quem aos 10 anos queria fazer parte de Chiquititas.
Aos 13 estudar no Elite Way School.
Aos 15 participar do BBB.
Aos 17 viver em Skins.
Aos 18 eu ainda não descobri um sonho...


Realidade. Nunca pensei no felizes para sempre, a final, acho que foi a vergonha que me tornou a pessoa estranha e excêntrica que sou hoje. Para sempre eu sei que não existe, por isso eu prefiro o felizes, e feliz eu sempre fui, mesmo que só desejando. Tenho medo da extrema felicidade.

Agora eu peço desculpas pra mim mesmo por estar sendo ridículo, mais uma vez, mas como eu disse eu nunca me canso.

Se foi a bebida ou a exaustão eu não sei, mas um dia ia chegar a hora de eu falar alguma coisa. Eu precisava saber, e pra ser sincero até agora eu não desvendei os sinais que você deixou.

E olha que já faz mais que um ano...

Tudo começou com um oi, conterrâneo.
E acabou em três copos de vodka.

Por enquanto!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Meu Dever

Eu devia escrever mais.
Eu devia comer mais verduras.
Eu devia durmir mais cedo.
Eu devia lavar a louça.
Eu devia parar de fumar.
Eu devia sentir menos medo.
Eu devia chorar mais, ser mais sensível.
Eu devia ser menos sensível também, às vezes.
Eu devia amar mais, ou ter amado quando eu pude.
Eu devia escrever um livro.
Eu devia esquecer as gafes, os tremores e toda a lama que me deixa vermelho de vergonha de mim mesmo.
Eu devia correr na chuva pelado cantando minhas músicas.


Talvez eu devesse parar de ser tão egocêntrico também.
Eu devia escutar mais, e saber melhor quando gritar.
Eu devia me entregar mais. Antes, talvez quando era menos calejado, eu era sem medos, pura alma e paixão, agora parece que tudo tem leis, consciência e ordem.
Eu devia estar em carne-viva, sentir a emoção pura, parar de filtrar significados.


E acreditem, eu sinto falta de chorar. Estar morno é estar pior que no inferno, eu gosto de queimar, quando eu grito de dor eu me sinto vivo.

Eu devia me dar uma chance, sentar sozinho, ler minhas coisas e pensar sobre mim. Acho essencial um estudo de nós mesmos. Existem psicólogos que sabem mais de Freud do que da próprio vida. Alô, absurdo?


Eu devia parar com essa minha mania de grandeza de querer mudar o mundo em um minuto, eu nem sei onde eu vivo cacete, e se eu mudar será o meu mundo. Existem bilhões de visões de mundos diferentes, mesmo que eu pinte o meu de colorido, os que vêm cinza nunca irão ceder. Mas quem disse que eu consigo parar? É como se eu quisesse me autoafirmar a cada momento como uma pessoa diferente, transformadora e especial. Baixa auto-estima, pleonasmo, neorose ou loucura mesmo?

Tudo.


Já confessei meu exagero, não tenho porque mentir agora.

Exagero é arte. Você se encanta porque é lindo demais, se choca porque é feio demais, se lembra porque é diferente demais.

Viva ao exagero.

Eu devia continuar exagerado.

Eu devia...

É o começo perfeito pra qualquer construção plública de ilusão.

sábado, 23 de outubro de 2010

Saudade

Me senti amado, e isso mudou meu dia.

Tinha esquecido de me sentir importante...

Depois de um certo tempo sem amor, todo o carinho que recebemos parece ser chocante.
Nos toca de tal modo, que a raiz do amar te abraça e por alguns segundos você se aquece.

Me sinto um artista dentro de mim mesmo.
Meus olhos são os paparazzi do meu reflexo, e jogar o cabelo vira quase um espetáculo.

As cortinas se abrem.


Um garoto, moreno, gay e estabanado.
Um retrato de outras vidas que viveu, em encarnações presas ao seu próprio tempo. Ele é um personagem de si mesmo, como diria Clarice. Sementes que caem em sua boca, dão indigestão, e ele sem querer vomita a vida.

Por que o meu ódio é minha arte mais amada?


Talvez por ser sincero, talvez por ser a alma em carne viva, e quando se está em carne viva é impossível não impressionar.

É o mundo frio que me faz ser admirado, reconhecido e depois feliz.

Cruel, ser admirado pelo sofrimento. É a ironia do poeta. Não que eu seja poeta, estou longe da arte rimada. Mas lá no fundo sinto que minha alma é poesia, que as entranhas são tortas mas se encaixam, o pulmão escuro porém sincero, o sangue tem espinhos que me despedaçam por viver, toda vez que paro, observo e simplesmente respiro para sentir a vida.


Sinto que loucura é tendência, e fico feliz. Loucura é questionamento. Questionar é se colocar no mundo como pessoa única, errante e amante. A vontade de contagiar o mundo com essa loucura talvez me faça mais feliz ainda, poucas almas conseguem ser contagiantes.

Contagiar é se amar, respirar todo ar ao redor em sincronia, fazer da sua verdade um esconderijo pra quem procura a sua própria.

Eu amo contagiar. Amo ser contagiado. E acima de tudo amo pessoas dispostas a se contagiar com o sangue e a doçura ao redor.

É engraçado como eu amo definir coisas que não sei definir. Minhas definições são estranhas. Mas é o que eu sinto e se arrasta até minha cabeça que eu procuro escrever.

Sendo honesto, ser estranho é minha qualidade preferida.

Viva à estranheza, viva ao contágio e viva às feridas da alma.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Brutalidade Inconsciente

Palavras e espinhos.

Ferem-me como fogo, passado bem devagar e concientemente pela pele.

Frases, histórias, casos e acasos, vividos ou inventados, fatos e fatores perdidos na sua cabeça, comédias e tragédias que interagem por diversão.

Palavras que saem da sua boca e que vão ao meu ouvido.


Palavras como serpas quentes, que devagarosamente machucam a pele, são duras de se ouvir e mais dolorosas ainda quando se entende.

A conveniência não te convém quando o assunto é cuspir no meu humor e enterrar minhas esperanças, mas acho que você não sente, sua boca deve ser inocente, o mal há nos meus ouvidos, que fazem de histórias claras, contos dramáticos de príncipes escondidos, mortos ou inibidos.

Parando pra pensar, o futuro não vale nada, todas as tramas que eu planejei ainda não existem, talvez nunca existam, o único fato presente e marcante é o passado, que te aprisiona em ideologias rústicas e me faz cada vez mais distante de alguém conformado.

Dor.

Crio a dor.

Faço desta constante.

O importante não é ter o que se quer, é sentir dor, e entender por que não se tem, porque talvez nunca terá e porque nunca teve. Entender-se, te faz digno de respostas suas. Não se engole teorias do vento quando se está embaixo da terra.


Entendo-me comigo mesmo, crio a teoria do incompreensível e desenvolvo a arma da "dessolução". Uma mente fria e moldada à rejeição, num corpo quente e sedento a redenção, numa alma frágil que só deseja confusão.

Rejeição: força do só, a rejeição não se conversa, não se entende, impossibilita a chance da leitura e compreensão do que se quer. Rejeição é cansaço de tentar.

Redenção: entrega do só, rendição ao inesperado, ao operante, ao momentâneo, aqui, agora e com a força que for. Redenção é cansaço de lutar.

Confusão: debilidade do sóbrio, realidade distorcida pela mente sã, raiva convertida em afeto, depois afeto que se torna raiva. Confusão é cansaço de entender.


A brutalidade das palavras me cansa. De tentar, lutar e entender.

Permanecerei desiludidamente vivo, pacificamente vivo, confuso e vivo.

O coração fraco que pulsa aqui dentro está cansado, mas ainda está vivo.